Opinion
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Carlos Castillo Mattasoglio a ser instalado como Arcebispo de Lima em 2019. Miguel Angel Chong/Wikimedia CommonsMiguel Angel Chong/Wikimedia Commons

(The New American) – No seu famoso discurso de abertura da Cimeira Mulheres no Mundo de 2015, Hillary Clinton afirmou, 

Os direitos [cuidados de saúde reprodutiva, ou seja, o direito ao aborto, esterilização e contracepção financiados pelo seguro de saúde do empregador sem co-pagamento, por exemplo] têm de existir na prática, e não apenas no papel. As leis têm de ser apoiadas com recursos, e a vontade política…. Códigos culturais profundamente enraizados, crenças religiosas, e preconceitos estruturais têm de ser alterados. 

Pergunta-se se ela pensa que as igrejas e religiões devem ser infiltradas para que as suas “crenças” e “códigos culturais” se adaptem à sua visão pessoal sobre os direitos humanos. Poderíamos deixar esta questão em aberto, e virar a nossa atenção para um caso em que tal infiltração parece ter realmente ocorrido. É o caso do actual Arcebispo católico de Lima. 

A Igreja Católica foi a principal autoridade espiritual da Cristandade Latina Ocidental, até a altura da Reforma. Ela governava as mentes do povo de uma forma espiritual. Na América espanhola, este era ainda o caso até à Independência, embora na Península ibérica a situação tivesse mudado anteriormente, desde o reinado de Carlos III. A partir do momento desta mudança, as instituições de governanção no mundo de língua espanhola eram sobretudo as Lojas Maçónicas, divididas em dois ramos, o conservador e o liberal. Ambas faziam guerra contra a Igreja (de forma diferente em países distintos e com mais ou menos resistência católica), o primeiro ramo, menos severo, mas muito eficaz, por exemplo através da expulsão das ordens religiosas e/ou a sua exclusão da educação dos jovens. As lojas tentaram, de várias maneiras, derrubar o espírito do catolicismo da América espanhola introduzindo o Protestantismo, impondo e abraçando a filosofia Positivista nas universidades e escolas, reanimando os cultos pagãos e relaxando os costumes morais, e ainda, como mencionado supra, expulsando as ordens religiosas. Mas, no século XX, uma estratégia ainda mais prejudicial foi adoptada por um inimigo muito mais terrível: os comunistas, que utilizaram a infiltração sistemática para “destruir a Igreja por dentro,” segundo a expressão criada por Taylor Marshall. 

Apesar da antiga guerra travada contra a Igreja pelas Lojas, até ao final do século XX, Ela ficou no coração da maioria do povo e, desta forma, foi uma força que impediu as revoluções mais radicais e/ou as consequências mais radicais dessas revoluções, mantendo os espíritos hispano-americanos ligados às tradições clássicas e escolásticas. Por esta razão, os comunistas compreenderam que a forma mais eficaz de promover a revolução e evitar o seu fracasso seria infiltrar-se na Igreja. Vou agora explorar um caso. Esta história tem interesse não só para os Católicos, mas também para todas as pessoas de boa-fé, porque os comunistas usam destas tácticas contra qualquer instituição que constitua um obstáculo para os seus planos, inclusive nos Estados Unidos. Portanto, esta é uma história que ilustra essa violência espiritual universal à qual a ideologia marxista e os seus aderentes submetem as massas em todo o lado. Traídos pelas decisões dos seus líderes políticos/espirituais, os espíritos dessas massas são nublados e enganados precisamente por aqueles que os deveriam manter iluminados. 

Eis a história, então, do Arcebispo de Lima. 

Em Janeiro de 2019, a renúncia do Cardeal Juan Luis Cipriani ao cargo de Arcebispo de Lima (por ter completado 75 anos de idade) foi aceite pelo Papa Francisco. Em seu lugar, o Padre Carlos Castillo Mattasoglio foi nomeado Arcebispo. Os fiéis Católicos de Lima ficaram surpreendidos. Porquê? 

D. Juan Luis Cipriani fora Arcebispo de Ayacucho durante o auge da guerra terrorista do Sendero Luminoso que assassinou cerca de 35.000 seres humanos inocentes. Com sucesso, ele tinha mantido heroicamente a verdadeira Fé e o ensino da verdadeira caridade universal ante os seguidores de um falso credo com uma falsa esperança num paraíso terrestre, sendo eles comunistas maoístas, semeadores de ódio e violência. Na década de 1970, Carlos Castillo foi primeiro, aluno de escolas católicas, e depois estudante de sociologia na Universidade de San Marcos, Lima, e membro da União Nacional de Estudantes Católicos. Não obstante, segundo Infovaticana, uma fonte de confiança, era também membro do Partido Comunista Revolucionário e tinha laços com o Sendero Luminoso. Não consegui encontrar outra fonte que confirmasse esta informação. No entanto, descobri que esta informação é coerente com o contexto histórico.

Na investigação de nove volumes do Comité Peruano de Verdade e Reconciliação, há um estudo dos partidos esquerdistas. Aí se encontra a seguinte passagem: “Fora do MIR [Movimiento de Izquierda Revolucionaria] havia em 1971 um grupo de líderes e membros que tinham em comum procederem de grupos de jovens católicos.” Na nota 12, o Comité acrescenta: “Mais tarde, este grupo de líderes e membros juntou-se à VR [Vanguardia Revolucionaria] e publicou periodicamente a revista Críticas Marxistas-Leninistas. O seu líder era Manuel Dammert Egoaguirre. Em 1974, separou-se da VR e formaram o Partido Comunista Revolucionário (PCR). Dammert e muitos dos esquerdistas que o seguiram vieram de experiências católicas radicais, como o próprio Dammert era, além disso, sobrinho do então Bispo de Cajamarca, D. Juan Luis Dammert Bellido (Pásara, 1986).” Assim, é inteiramente consistente que um jovem “católico” fosse ao mesmo tempo membro do Partido Comunista Revolucionário. 

Outro aspecto do contexto que corresponde à referida informação é que o fundador do Partido Comunista: Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, estendeu a sua rede de influência à Universidade de San Marcos em 1973, precisamente quando Castillo Mattasoglio lá estava como estudante de Sociologia. Nesta mesma altura Castillo juntou-se à União Nacional de Estudantes Católicos, onde conheceu o P. Gustavo Gutiérrez, estabelecendo com ele uma amizade duradoura, segundo o jornal peruano La República. 

Uma palavras sobre Gutiérrez seria apropriado, penso eu. Existe o mito de que ele corrigiu a sua doutrina à luz da condenação da teologia marxista da libertação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas isto não é correcto. Quando se lê a edição de 1972 do seu livro Teologia da Libertação, comparando-a com a edição de 1990, verifica-se que não há qualquer mudança substancial. E em 2006 e 2008, Gutiérrez afirmou que não se arrepende de nada do que escreveu na primeira edição da Teologia da Libertação. Ora, em ambas as edições, Gutiérrez afirma, essencialmente, que a Igreja deve ser usada para fins que lhe são estranhos e que os marxistas devem tornar-se clérigos para o conseguir: 

No passado, a Igreja utilizava o mundo para os seus próprios fins; hoje, muitos cristãos – e não cristãos – perguntam a si próprios se deveriam, por exemplo, utilizar o peso social da Igreja a fim de acelerar o processo de transformação das estruturas sociais. 

O Padre Gutiérrez com aprovação, cita outro padre: 

O nosso objectivo essencial não é [como para alguns padres holandeses que deixaram o sacerdócio] “pôr fim à nossa situação de clérigos,” mas sim comprometermo-nos de forma sacerdotal no processo revolucionário latino -americano…. Assim, mesmo que os nossos actos e palavras nos tragam – como já têm feito – fricções e suspeitas da maior parte da igreja “oficial,” a nossa ocupação não deve aparecer como marginalizada por ela, porque isso diminuiria a eficácia da nossa acção. Pensamos que a Igreja tem um enorme poder para criar consciência no povo…. Pensamos, nós os latino-americanos, que muitas razões sociológicas e históricas nos fazem sentir o estado clerical de uma forma diferente da sua [dos padres holandeses acima referidos] forma de o sentir. 

Talvez estes textos esclareçam a natureza da carreira clerical de Castillo. De facto, ele discordou repetidas vezes do Arcebispo ortodoxo de Lima, D. Juan Luis Cipriani, causando escândalo pela sua desobediência. Em 2013, a sua licença canónica para ensinar teologia foi-lhe retirada, devido aos seus ataques contra a hierarquia da Igreja. No entanto, o Padre Castillo recusou-se a cuidar do trabalho pastoral que o seu Arcebispo lhe atribuiu, em vez das suas aulas universitárias. Segundo alguns Católicos peruanos, Castillo apenas continuou a ensinar cursos que não exigiam a licença, e quando a Pontifícia Universidade Católica do Peru entrou em conflito com o Arcebispo Cipriani, e após a Congregação da Educação Católica ter decidido a favor do Arcebispo, o Padre Castillo fez pressão para obter de Roma a revogação de tal decisão e, além disso, a entrega total da universidade ao partido que se recusou a respeitar a sua identidade católica. 

Luciano Revoredo é um jornalista católico peruano que está muito preocupado com a reviravolta tomada pela Igreja peruana a partir da visita do Papa Francisco em 2018. Segundo ele, a Igreja no Peru na atualidade é liderada principalmente por três prelados cuja inclinação marxista é bem conhecida: “D. Miguel Cabrejos, Presidente da Conferência Episcopal Peruana e Arcebispo de Trujillo; D. Pedro Barreto, Cardeal e Arcebispo de Huancayo e Dom Carlos Castillo, Arcebispo de Lima.” Esta revolução foi concebida, segundo Revoredo, pelo Padre Carlos Cardó Franco, S.J., que se reuniu com Francisco no Peru e que é hoje conhecido como o “Núncio-Sombra.” 

As acções e ensinamentos de Castillo como Arcebispo de Lima confirmam o perfil dado por Gustavo Gutiérrez do clérigo revolucionário. De facto, (1) D. Castillo exortou o Peru a aceitar os resultados das últimas eleições presidenciais, embora fossem evidentemente fraudulentas e tivessem levado ao poder um revolucionário marxista de linha dura. Revoredo, que relata este facto, exclama, “A nossa Igreja nunca chegou, até agora, a tais níveis de politização e de desvio dos seus autênticos fins.” (2) Além disso, assim que Castillo se tornou Arcebispo em 2019, fez uma pausa da Marcha pela Vida e tenta esvaziar o entusiasmo do povo peruano pela defesa dos nascituros. (3) A primeira porta-voz que Castillo Mattasoglio nomeou foi uma mulher a favor da ideologia do género. (4) Como os marxistas latino-americanos sempre fazem (imitando Castro), Castillo tem promovido cultos pagãos, supostamente ancestrais, dentro dos templos católicos. Podemos vê-lo, por exemplo, entoando aqui um hino de louvores à Pachamama. (5) Mas o acto mais ousado contra a Fé foi a sua homilia de 19 de Dezembro de 2021, na qual declarou que Jesus não morreu num Sacrifício do Holocausto nem como Sacerdote, senão como um leigo assassinado e membro do “Povo.” Estas declarações correspondem exactamente à inversão marxista da escatologia cristã. Jesus, o Cristo, segundo a Bíblia (Antigo e Novo Testamento) morreu pelos nossos pecados, tomando sobre Si a expiação, oferecendo-se a Si Próprio como Sumo Sacerdote e Vítima em perfeito Holocausto. Assim, Ele redimiu-nos para o Reino que não é deste mundo. Segundo o marxismo, a “salvação” é para este mundo e o reino que será estabelecido após a revolução é deste mundo. Uma reinterpretação do Evangelho em código marxista sustentaria que morrer como Holocausto para a expiação dos pecados seria pura ideologia. Portanto, Jesus deve ser considerado não como um Sacerdote (cujo papel principal é oferecer o Sacrifício da Nova Lei), mas como uma pessoa leiga que se opõe aos sacerdotes do seu tempo, como D. Castillo afirmou na referida homilia. (6) Um corolário “pastoral” desta inversão teológica é um plano que D. Castillo anunciou: Ele retirará os sacerdotes das suas paróquias e colocará famílias de leigos como líderes de tais paróquias. Se Cristo não é sacerdote, porque é que o Povo precisa dos chamados “sacerdotes” cujo trabalho imaginário é celebrar o suposto sacrifício da Missa, uma suposta actualização do Sacrifício da Cruz que, segundo D. Castillo, não é um sacrifício? 

À luz dos parágrafos anteriores, não é de admirar que os fiéis Católicos do Peru tenham ficado surpreendidos com a nomeação de Carlos Castillo Mattasoglio como Arcebispo de Lima. Se a história, as acções, e o pensamento de D. Carlos Castillo Mattasoglio estão mais em linha com o Marxismo do que com o Cristianismo, como nos parece, as questões que permanecem são, (1) O que poderiam fazer os Cristãos do Peru para serem fiéis a Deus em vez de aos homens? (2) Os fiéis de outras partes do mundo estão sujeitos a este mesmo tipo de violência espiritual, estando sujeitos na Igreja a uma autoridade que usa a Igreja como um meio para outros fins que não são dela? (3) Os outros grupos culturais e espirituais estão igualmente infiltrados? 

Reimpresso com a autorização de The New American.

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