Opinion
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El Cardenal Robert SarahJohn-Henry Westen/LifeSiteNews

(Crisis) – Porque é que o Ocidente quer aniquilar aquilo que construiu em primeiro lugar? O verdadeiro inimigo do Ocidente é o próprio Ocidente, a sua impermeabilidade a Deus e aos valores espirituais, o que se assemelha a um processo de auto-destruição letal.

– Cardeal Robert Sarah, A Noite Vai Caindo e o Dia Já Está no Ocaso

Neste ponto, os contornos do debate Viganò são bastante claros. Onde o Arcebispo Viganò culpa um expansionista da NATO e do Ocidente pós-cristão pela guerra na Ucrânia, os críticos de Sua Excelência acreditam que ele não só está a branquear as duras realidades do regime de Vladimir Putin, como também a ignorar pontos-chave da doutrina da guerra justa. Como o Arcebispo emprega frequentemente linguagem apocalíptica para descrever as maquinações convolutas dos globalistas, há também a preocupação de se estar a transformar num teórico excêntrico da conspiração. Em vez de acrescentar ao já considerável volume de comentários a favor ou contra o Arcebispo Viganò, parece-me mais interessante notar que, em certo sentido, ele não está sozinho. Ou seja, ele não é o único homem da Igreja ou mesmo da mais alta esfera – que, por vezes, “olhou para Leste” para remediar “os erros do Ocidente.”

De facto, entre os Católicos observadores, seria difícil encontrar um homem da Igreja vivo mais estimado universalmente do que Cardeal Robert Sarah. Francófono e natural da Guiné-Conacri, o Cardeal Sarah é caracterizado por um luminar nada mais, nada menos do que George Weigel como “uma luz brilhante,” uma luz cuja “fé ilumina o caminho para uma autêntica reforma católica.” Na sua maioria, outros comentadores Católicos parecem partilhar este ponto de vista. No entanto, a maior parte dos que elogiaram o Cardeal ignora de forma consistente e conspícua o quão dramaticamente a visão do mundo do Cardeal choca com a dos Católicos conservadores da América. Não é como se as opiniões inconvenientes do Cardeal tivessem sido repudiadas; não, elas nem sequer foram reconhecidas.

Por exemplo, em 2019, quando foi publicado o livro do Cardeal Sarah “The Day Is Now Far Spent” (em português A Noite Vai Caindo e o Dia Já Está no Ocaso), este escritor ficou impressionado não só pela condenação enfática e repetida da globalização e do capitalismo financeiro, mas também pela total falta de interesse dos críticos que referiram esta parte do livro. Declarações pertinentes como “A humanidade globalizada, sem fronteiras, é um inferno”, foram inequívocas e certamente relevantes para as controvérsias ardentes que ainda se arrastavam na sequência do Brexit e da eleição de Donald Trump. Poucos jornalistas católicos nem sequer aludiram a tais observações.

Tanto quanto sei, ninguém se apercebeu das reflexões do Cardeal Sarah sobre as relações entre os EUA e a Rússia, ainda que essas relações tivessem sido objecto de um interesse crescente nos círculos católicos conservadores já há algum tempo. Era quase como se a maioria dos jornalistas católicos ignorasse simplesmente declarações como as seguintes, que não podiam de forma alguma ser transformadas em texto padronizado, seguro e conservador:

Na Rússia, a Igreja Ortodoxa retomou, em grande medida, o seu papel anterior a 1917 como fundamento moral da sociedade. Isto suscita oposição política, mas também um profundo ódio por parte das elites pós-cristãs ocidentais, não só em relação à Rússia, mas também contra a Igreja Ortodoxa Russa e, por extensão, contra o próprio cristianismo Ortodoxo. O ataque manifestamente político que visa colocar a Ucrânia contra a Igreja Ortodoxa Russa sob a autoridade do Patriarca Cirilo de Moscovo é uma provocação perigosa e estúpida.

Aqui devem ser concedidas algumas posições implícitas por parte de Sua Eminência, posições essas com as quais podemos ou não estar de acordo. Por um lado, ao contrário da maioria dos americanos, o Cardeal Sarah não aceita a ideia de um “muro de separação” entre a Igreja e o Estado. Além disso, ele não rejeita a Igreja Ortodoxa Russa, nem como uma frente do KGB, nem como uma camarilha de cismáticos malditos.

Quer esteja certo ou errado em tais assuntos, parece conhecedor de algo há muito esquecido por muitos Católicos americanos que agora ostentam bandeiras ucranianas: O golpe de 2014, apoiado pela administração Obama, que derrubou o governo pró-russo da Ucrânia. (Se nada mais, aqueles que criticam a reacção histérica de Washington a 6 de Janeiro podem achar interessante contemplar o apoio do Departamento de Estado americano à mudança do regime ucraniano através de milícias organizadas, lutas de rua e Cockails Molotov; a verdade é que a hipócrita elite americana não tem qualquer problema com a insurreição violenta, desde que a dita catástrofe aconteça noutro pais).

Poderíamos também reconhecer que, embora o apoio do Cardeal à Rússia contra um Ocidente pós-cristão não fosse tão impressionante e extravagante como o de Viganò, ainda estava muito além do politicamente correcto, mesmo em 2019:

João Paulo II estava convencido de que os dois pulmões da Europa tinham de trabalhar em conjunto. Actualmente, a Europa Ocidental está a empregar meios extraordinários para isolar a Rússia. Porquê persistir em ridicularizar aquele grande país? O Ocidente está a exibir uma arrogância inaudita. A herança espiritual e cultural da Igreja Ortodoxa Russa é inigualável. O despertar da Fé que se seguiu à queda do comunismo é uma esperança imensa.

Neste ponto, o apoio que o governo russo dá à ortodoxia russa é tratado como uma marca contra ela, como um sinal de manipulação. Pela sua parte, o Cardeal Sarah toma por garantido que a conservação da herança cristã de uma nação é uma coisa boa, independentemente da superficialidade dos motivos dos políticos. “O Ocidente parece satisfeito por ver as suas igrejas transformadas em ginásios, as suas capelas românicas a cair em ruínas, o seu património religioso ameaçado por uma total dessacralização. A Rússia, pelo contrário, está a gastar somas consideráveis para restaurar os tesouros da Ortodoxia.”

E para enfatizar a sua comparação, o Cardeal Sarah contrastou o envolvimento americano e russo no Médio Oriente, mais uma vez a favor dos russos:

A administração Obama tentou levar a liberdade aos Sírios. Hoje o país assemelha-se a uma vastidão de ruínas. Sem a intervenção da Rússia, um regime islamita teria acabado por ganhar o dia. Os Cristãos daquele país devem a sua sobrevivência a Moscovo. A Rússia desempenhou o seu papel como protectora das minorias cristãs, a maioria das quais ortodoxas. O governo russo pretendia defender uma religião, mas também uma cultura.

Recorde-se, mais uma vez, que todas estas observações foram publicadas há vários anos; portanto, nada disto se destina a pôr palavras na boca de Sua Eminência sobre a situação actual. O seu actual relato no Twitter indica – sem surpresa – que lamenta a guerra, a morte e a destruição, e gostaria de ver uma resolução pacífica. Parece dificilmente plausível que ele tolerasse a invasão de um país por outro, seja qual fosse o cenário. No entanto, dadas as suas críticas anteriores, parece igualmente duvidoso que ele culpasse inteiramente a Rússia pela guerra, e muito menos que se unisse em torno da bandeira ocidental.

Para compreender porquê, precisamos de recordar que a perspectiva do Cardeal Sarah é informada por experiências radicalmente diferentes, digamos, das de um católico americano suburbano. Como africano nativo, Sarah mantém uma apreciação pelos laços orgânicos e tribais que os americanos em grande parte descartaram. Como pós-colonial, bastante à vontade com a cultura e as ideias católicas francesas, representa uma visão do mundo radicalmente contra-revolucionária, que olha com desconfiança não apenas para o socialismo, mas também para o próprio projecto liberal lockeano:

O povo ocidental está convencido de que receber é contrário à dignidade do indivíduo. Mas o homem civilizado é fundamentalmente um herdeiro, ele recebe uma história, uma cultura, uma língua, um nome, uma família. Isto é o que o distingue do bárbaro. Recusar inscrever-se numa rede de dependência, património e filiação condena-nos a regressar à selva de uma economia competitiva, nus e deixados à sua própria sorte. Porque recusa reconhecer-se como herdeiro, o homem está condenado ao inferno da globalização liberal, em que os interesses individuais se confrontam sem qualquer lei para os governar, para além do lucro a qualquer preço.

Caso o leitor não tenha reparado, estes sentimentos são quase diametricamente opostos aos encontrados nas páginas da National Review, que vê a “globalização liberal” não como um inferno, mas como o céu.

Só para ser claro, adiantarei que o meu verdadeiro objectivo aqui não é defender uma visão particular da guerra, nem tratar o Cardeal Sarah como se fosse um profeta infalível, nem insistir que ele estava certo sobre o estado da Rússia, sobre o globalismo, ou sobre qualquer outra coisa em particular. Não, o que me interessa é que um eclesiástico de renome acredita que o maior inimigo do Ocidente nunca foi a Al Qaeda, a ISIS, ou a China, e muito menos a Rússia, mas sim o próprio Ocidente – e nenhum dos que professam admirá-lo se apercebeu disso.

Os Católicos conservadores evadem-se consistentemente da questão, sempre que uma pessoa honrada – viva ou morta – abandona a sua própria agenda estreita de “capitalismo democrático”. Talvez esta prática se deva à desonestidade, ou talvez seja uma mera dissonância cognitiva. Seja como for, o mal que perpetua vai muito além da política externa. Se cairmos no hábito de filtrar descuidadamente tudo o que nos possa desafiar, então é inútil discutir os pensamentos do Cardeal Sarah – ou de qualquer outra pessoa.

Jerry D. Salyer tem Licenciatura em Aeronáutica pela Universidade de Miami e é Mestre em Artes pelo Great Books Program do St. John’s College, Annapolis. Veterano da Marinha dos EUA, o Dr. Salyer trabalha agora como educador e como escritor independente.            

Republicado com a autorização da revista Crisis Magazine.

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